Viver e pertencer ao mundo


Como cultivar a esperança no coração

      Eu nasci em uma das maiores províncias do meu país. A propósito, eu me chamo Piedade de Jesus Valente Manuel ou apenas Tombo, como meus amigos me chamam. Sou angolano, ou pelo menos Angola é o lugar que me viu nascer e crescer e aos poucos me vê evoluindo de canto a canto.
      Angola foi colônia de Portugal por mais de 500 anos. Por isso, o idioma oficial é o português, uma das poucas heranças deixadas pelos portugueses.
       Há 34 anos, exatamente aos 11 de novembro de 1975, Angola tornou-se independente por meio de uma luta armada e, até em 2002, o país estava mergulhado numa guerra civil que durou 27 anos e vitimou mortalmente mais de 1 milhão de pessoas. Tudo pelo poder.
       Um tipo de guerra que ao final ninguém ganha. Na verdade, ninguém ganha numa guerra, não importa quem se declarar vencedor. Todos os envolvidos saem a perder porque, de alguma maneira, cada lado perde, e muito, vidas, infra-estrutura e principalmente tempo, muito tempo.
      Como acontece em toda guerra, muitos já tinham perdido a esperança de uma Angola melhor, porque era muito sofrimento. Mas também há aqueles que nunca perdem as esperanças, muito menos sua fé.
       Eu já tinha perdido a esperança, mas ainda tinha fé, e tudo isso se confirmou quando, em 2002, comecei a trabalhar numa ONG chamada Lutheran World Federation - Federação Luterana Mundial, na qual eu ocupava o cargo de Assistente de Desenvolvimento Social e, mais tarde, fui destacado como um dos responsáveis pela área de reassentamento das populações.
       Eu nasci com educação religiosa e tenho muita fé, mas tudo isso aumentou quando eu comecei a me relacionar e a conviver com deslocados e refugiados de guerra. Senti meu coração iluminado, senti que apesar da guerra devastadora que assolou o país, o "cara lá de cima", Deus, tem sempre alguma coisa reservada para todos nós. E uma das coisas que mais marcou-me durante o meu trabalho foi a diversidade na adversidade.
       Eu distribuía comida, bens de primeira necessidade, utensílios agrícolas, tendas, sementes e outras coisas das quais eles precisavam. Comecei a perceber que tudo isso os deixava felizes, mas seus olhos ficavam iluminados pelo fato de ter alguém que os tratava como pessoas, inclusive muitos deles falavam assim "TATA ZAMBI KA TFU LEMBA", que significa "Deus me abençoou".
      Descobri que a real felicidade deles não era porque estávamos a levar comida para eles, mas sim porque eles perceberam que tinham pessoas que se preocupavam com eles. Tive provas disso quando eu fui morar com eles, na sua aldeia, e tive o prazer de viver aquela realidade que era muito diferente da minha. Percebi que não distribuía comida, distribuía Esperança.
       Antes da guerra acabar, exatamente em 1992 o Papa João II esteve em Angola e como que num toque de mágica as ruas da capital de Angola, Luanda, encheram-se com uma multidão que até então eu nunca tinha visto. Apesar de ter só 10 anos na altura, fiquei admirado com tamanho número de fiéis. Só quando eu cresci, percebi que aquilo que vi quando criança chamava-se FÉ.
       O Papa beijou o solo de Angola, o que nos fez lembrar que todo solo é sagrado, porque o Senhor está em toda parte e que o Senhor é de paz e não de guerra. Até hoje, eu acredito que foi aquele gesto, e a sua carta para os jovens, que fizeram com que os jovens angolanos reacendessem sua fé num país onde a miséria, a desigualdade e a corrupção fazem parte do dia-a-dia de muitos.
       A visita do Papa reacendeu nos jovens a sede de buscar o evangelho, não importando o credo religioso, e foi assim também que o Papa se dirigiu aos jovens pedindo para que eles fossem santos e buscassem a santidade fazendo o bem.
       Sinceramente, eu nunca vi tanto jovem procurando por uma igreja como tenho visto agora. Em Angola, é cada vez maior o número de jovens que desejam viver a fé, é cada vez maior o número de grupos de jovens que procuram orientar-se pelo caminho do divino, o que era raro.

Eu sou do mundo

      Eu sou do mundo, porque em cada lugar aonde eu vou, encontro uma família, uma família multiétnica, uma família que não se distingue pela cor da pele ou credo religioso. Perdi minha mãe biológica com 9 anos de idade, mas o "cara lá de cima" se encarregou de me dar várias mães, em cada lugar aonde eu vou e uma família que me acolhe e me trata como filho de casa. Muito obrigado, Senhor!
       Quando me perguntam se eu tenho um grupo de jovens, eu respondo que tenho vários, mas, atualmente, participo dos encontros no Centro Internacional com as Missionárias Scalabrinianas, onde eu aprendi que o mundo faz parte de todos e todos somos do mundo. Para além de tudo isso, eu sou escoteiro católico e pertenço ao agrupamento 88, da província do Moxico e cidade do Luena.
       Um evento que também chamou a minha atenção foi a disponibilidade dos jovens quando, em 2008, o Papa Bento XVI esteve em Angola. Eu não tive a oportunidade de ir vê-lo, mas, no meu grupo, Negrini, foram escolhidos jovens para fazer parte do protocolo. É visivel também a disponibilidade de jovens, em Angola, em entregar-se cada vez mais para Deus: uns para serem padres; outros, casando-se e servindo a Deus, do jeito que cada um quer testemunhar que está aqui para Deus.

Uma experiência como estrangeiro

      Depois de um tempo em Angola, trabalhando, meus irmãos decidiram que era hora de eu voltar a estudar e foi assim que eu vim para o Brasil.
       A primeira vez que eu vim foi ao final de 2003, com um senhor que era "amigo" do meu cunhado e fiquei aqui oito meses, fiz cursinho, no Objetivo, para prestar provas para o vestibular da FUVEST, passei a primeira, mas, quando eu tinha que fazer a segunda, meu visto perdeu validade e eu tive que voltar para Angola. Antes de voltar para Angola, eu estava no metrô quando vi a propaganda de uma Universidade chamada Centro Universitário Assunção, UNIFAI, e, imediatamente, fui me inscrever para prestar a prova e não perder a minha viagem aqui no Brasil. Graças a Deus passei, fiz a matrícula e voltei para Angola para legalizar a minha situação.
       Nessa altura da minha vida, eu já morava sozinho e foi quando fui à igreja. Comecei a sentir falta de um grupo de jovens, porque, em Angola, eu fazia parte de um. Na igreja, conheci um grupo que era denominado SIGA, "saúde, integridade, garra e atitude", e logo me inseri e fui bem recebido. Foi por meio do SIGA que eu comecei a fazer muitas amizades.
       O complicado de se morar no estrangeiro é que temos que depender da transferência monetária de nossos familiares e isso, às vezes, atrasa até um mês, porque nem sempre o dinheiro está disponível. Já tive que passar por isso. Houve momentos em que fiquei 55 dias sem dinheiro e tive que me alimentar de arroz com açúcar ou esperar o convite de um amigo para ir almoçar em sua casa. Mas isso são coisas que acontecem com quem estuda no estrangeiro, para quem vem por conta própria, sustentado pela família.
       Com o passar do tempo, comecei a perceber que tudo isso são só detalhes e que como diz a Bíblia: "não só de pão vive o homem". Vi que há pessoas que, mesmo tendo tudo na vida, chegam a ter também mais problemas do que eu e vêm me pedir ajuda tanto para aconselhá-las quanto apenas para desabafarem e eu ouvir.
       "Era estrangeiro e tu me acolheste". É assim que eu me sinto aqui no Brasil, quando muitos me tratam sem discriminação. Como diz uma canção da Scalabrini Band, a realidade é mais profunda do que a estrada que percorri, os problemas podem ser grandes mas a própria pessoa é muito maior do que seus problemas e quem a alcança, alcança a Deus. Não importa o quanto a vida seja sangrenta, não importa o quanto tenhamos que suar, enquanto houver pessoas de boa vontade, como as que encontrei no Brasil, às quais serei eternamente grato, nada nem ninguém me tirará a convicção e a certeza de que, na hora certa, Deus nos dá exatamente o que pedimos.
       Apesar de sê-lo, eu parei de me sentir estrangeiro aqui no Brasil, vivi experiências boas e ruins e com todas elas aprendi muito. Convivi com pessoas boas e com pessoas que precisam ser orientadas, mas como se diz: não existem pessoas que não sabem nada e que nada tenham para ensinar, como também não existem sábios que não tenham nada para aprender.
       Que Deus nos abençoe e nos possa guiar pelos caminhos do êxodo.

Tombo Wapinda