Inshallah


Farida e Ali são um casal de argelinos que fazem uma pizza maravilhosa, kebab e outros pratos mediterrâneos, os quais, algumas vezes, são o rápido almoço de quem trabalha na região da Estação Termini, em Roma. Foi assim que se tornaram nossos amigos.
Pergunto-lhes se estão dispostos a serem entrevistados. Sorriem maravilhados: Por que escolheu justo a gente?
Faz mais barulho uma árvore que cai do que a floresta que cresce, respondi. Vocês são representantes daquelas árvores da floresta que crescem, daqueles cidadãos transplantados aqui, vindos de outras terras, que com o seu trabalho silencioso contribuem vitalmente para o crescimento de nossa sociedade. Acredito que seja importante, justamente nos momentos difíceis que estamos vivendo, dar voz a esta realidade positiva e cheia de vida que não faz notícia...
Farida não me deixa terminar. Entendi, está bem, aceitamos, não é verdade, Ali? Ali sorri; sabe que é melhor deixar o microfone para a esposa. E assim ela, como um rio no tempo da cheia, começa a contar...


      É sempre difícil partir. No meu caso, ainda mais. Tinha uma boa posição. Depois de ter terminado a faculdade de engenharia eletromecânica, tinha um bom trabalho garantido. Venho de uma família que está muito bem economicamente, sabe? Quando cheguei na Itália, tive de começar tudo do zero, tudo sozinha.
      Mas, para entender bem a minha história, precisamos voltar no tempo, em 1954. Obviamente, nem eu nem Ali tínhamos nascido, mas aquele ano foi importante porque marcou o início da guerra pela independência 1, sendo que antes a Argélia era uma colônia francesa. Uma vez terminado o conflito, em 1962, não houve logo paz e desenvolvimento, porque a guerra civil continuou a ensanguentar nosso país até o ano 2000. Tanto é verdade que, em 1995, mataram meu pai. Era um homem com autoridade política. Durante a guerra de independência, esteve na prisão, porque era um combatente e não temia expor-se. Foi sequestrado e por dois dias não tivemos nenhuma notícia dele. Depois, disseram-nos que tinha sido morto. A polícia o trouxe morto para nós. Muita gente participou do funeral, porque era muito conhecido e amado. Não tinha medo de ninguém, dizia a verdade e denunciava as coisas que não iam bem.

O que aconteceu depois da morte do seu pai?
      Também nós, os filhos, fomos ameaçados. Temos o costume de fazer uma festa para recordar o falecido no terceiro dia após o funeral. Chamaram-me ao telefone para os pêsames e me disseram: Mataremos vocês como fizemos com seu pai. Fiquei em estado de choque. Logo a mãe disse: Basta, vão embora, todos vocês! Para mim não há problemas, já tenho idade, mas vocês devem ir o mais rápido possível, ainda têm que viver a vida! Na nossa família somos cinco irmãs e três irmãos. Sou a menor das mulheres. Depois de mim, ainda tem um irmão menor. Quase todos tivemos de fugir da Argélia.
      Por exemplo, uma das minhas irmãs é jornalista; trabalhava na rádio nacional. Seu marido tinha sido ameaçado de morte, por isso fugiu. Pediu asilo político na França e logo lhe foi concedido. Quem mata os jornalistas não são os muçulmanos, mas os terroristas: não se mata pela religião. O verdadeiro Islã não quer matar. A verdadeira religião leva ao respeito do homem, da vida e também da natureza. E além disso, na guerra se deveriam respeitar pelo menos os civis, as mulheres, os idosos, as crianças. Minha irmã ficou por alguns meses na Argélia com o menino menor, mas vivia fechada em casa a motivo do medo, até que recebeu o visto e pôde ir se encontrar com o marido em Paris. Infelizmente, não pôde mais voltar para nosso país desde então, e já passaram-se quinze anos. Não viu a morte de tantos parentes e os seus três filhos até hoje não conhecem a Argélia.
      Uma outra irmã casou-se com um advogado. Um dia, lá pelas três da madrugada, vieram procurar o marido em casa. Ela entendeu que queriam matá-lo. Às seis horas do mesmo dia conseguiram fugir. Não sei até hoje porque os perseguiam, e assim faziam com todos os intelectuais. Também eles encontraram refúgio na França, mas agora essa irmã voltou para Argélia.
      Cheguei em Roma no dia 13 de setembro de 1997, dois anos depois da morte de meu pai. Logo comecei a procurar trabalho. Deixei minha terra de um dia para o outro, com a ajuda de um amigo de meu pai que providenciou o visto. Não sabia bem o que me esperava na Itália. Era jovem e corajosa. Encontrei Ali depois de dois anos que já morava em Roma. Um dia estava falando ao telefone com alguém de casa, ele ouviu sua língua e se aproximou. Assim nos conhecemos pela primeira vez.

Então você também chegou sozinha como refugiada?
      Não quis pedir refúgio porque queria voltar a ver minha mãe. Via minha irmã que, por causa daquele tipo de documento, não podia voltar. Por isso, preferi chegar como turista e depois esperei. Não encontrei um emprego que correspondesse aos meus estudos. Comecei lavando pratos: chorava e lavava os pratos. Lembro-me que no primeiro dia no restaurante a máquina de lavar os pratos estava quebrada e tinha um casamento, com muita louça. Lavei tudo sozinha, parecia que tinha não duas, mas dez mãos! Queria com todas minhas forças que me contratassem, por isso quis mostrar como era capaz de trabalhar. Depois, trabalhei em um posto de gasolina onde limpava os vidros dos carros. Depois, como restauradora de tapetes. Consertava também aparelhos elétricos, tendo estudado eletrônica.
      Uma senhora judia, chamada Ana, ajudou-me muito naquele período. Sou-lhe profundamente agradecida e tenho uma grande estima por ela. Graças à sua família, que confiou em mim, pude regularizar os documentos. Disse-me: Quando sair a anistia, deixa comigo! E assim foi. Tinha as chaves do seu estúdio de artes e ela dizia até mesmo que era a minha assistente!
      Hoje tenho a permanência e em novembro, se Deus quiser, vou poder ter a cidadania italiana.

Você pode nos contar alguma coisa sobre sua nova família?
      Casei-me com Ali e, em 1999, nasceu Rania. Escolhi esse nome, antes de mais nada, porque assim se chama a rainha da Jordânia, uma mulher belíssima, culta, inteligente, jovem. O que lhe falta? Também porque Rania significa "melodia bonita". Depois de quatro anos e cinco meses, tive um segundo filho, Mustafá. Trabalhei no forno até o último momento. Ali me levou ao hospital quando o menino estava para nascer! Quem escolheu o nome Mustafá foi minha mãe, porque é o segundo nome do nosso Profeta.

Agora que a situação na Itália tornou-se mais difícil para os estrangeiros, como você imagina o futuro de Rania e Mustafá?
      Tenho muito medo. Às vezes, acontece de levantar-me lá pelas duas da madrugada, penso nas crianças e digo para mim mesma: O que vamos fazer? Se os italianos não conseguem se sustentar, imaginem quantos problemas a mais não enfrentam os imigrantes. Não sei se vai mudar alguma coisa, quando terei a cidadania. Há tempos me sinto italiana. Vivo na Itália há doze anos, não é pouca coisa! Sinto-me integrada. É um país muito bonito: tem o mar, as montanhas com a neve...

Você se sente italiana, mas deu aos filhos nomes que fazem entender logo a origem deles. Por quê?
      Penso que eles são italianos, mas a origem deles é uma riqueza, não devem se envergonhar, mas ficar orgulhosos. Escolhi os nomes com um significado. Já estamos distantes da Argélia e da família. Não queria que os filhos tivessem um nome estrangeiro. Sabe, nunca tinha pensado em abandonar meu país e ir viver em um outro! Ainda hoje, às vezes, choro por aquilo que deixei, principalmente o trabalho que tinha, que me proporcionava viagens para a Espanha, Bélgica... Tive de enfrentar uma vida diferente com garra e vontade. Essa força é algo de bonito que tenho em mim e que me faz enfrentar o medo, não me deixa ficar abatida, para conseguir levar para frente toda a família. Não é fácil, com todos esses problemas!
       Na escola, tive algumas dificuldades na integração dos filhos, principalmente com Rania. Agora ela está na terceira série do fundamental. À tarde, dado que trabalhamos na pizzaria, Ali acompanha os dois no projeto. Rania estava na segunda série. Quando alguma criança fazia aniversário, sua família organizava uma festa. Um dia, fui buscá-los na escola e os encontrei sozinhos e Rania estava triste, com a cabeça baixa. A sala deles estava vazia: E onde estão as outras crianças?, perguntei. Responderam-me que todos tinham ido para a festa de um amigo. Todos, menos eles. Voltamos para casa. Rania, em silêncio, colocou o pijama e se escondeu debaixo das cobertas. Não falava e escorriam grossas lágrimas.
       O que fazer? Naquele momento não falei com ninguém sobre esse fato. Faltavam dois meses para o aniversário de Rania. Aluguei uma sala muito bonita. Preparei os convites e os dei para a professora, com a qual tinha um bom relacionamento. Ela tinha entendido minha situação. Pedi que me ajudasse a entregar para todas as crianças o convite para a festa e, principalmente, para convencer as mães a mandarem seus filhos. Convidei toda a classe, inclusive aquele menino que tinha excluído Rania. Preparei tantas coisas gostosas e quentes para comer e, por fim, um bolo tão grande quanto o de um casamento. Você viu o que fiz? Abri a porta para eles. Queria dizer com esse gesto: Não sou diferente de vocês! Não joguem sobre uma menina os problemas de vocês. As crianças não têm nada a ver com esses problemas, somos todos iguais!
       Estou convencida que seja ignorância, mas quis responder a eles de um modo diferente, sem me colocar no mesmo nível. A professora ficou impressionada. Depois de quinze dias, começaram a chegar os convites para Rania. Acredito que tenham entendido. As mães começaram a falar comigo, agradeciam-me pela festa, e estabeleceu-se com todos boas relações.
       Por sorte a psicóloga da escola me assegurou que a menina já tinha superado aquele momento difícil. Eu também falei muito com ela, disse que é bonita assim como é, que não é diferente dos outros, mas também que é preciso saber enfrentar o mal com o bem, que aquelas pessoas não tinham entendido o que é ser estrangeiro. Enfrentar o mal com o bem, isso aprendi com minha mãe. De outro modo, não se vai para frente. Se tivesse tido cabeça dura, se tivesse feito uma reivindicação, teríamos criado um conflito e Rania teria sofrido ainda mais.

O que é mais importante para você na vida? O que lhe dá esperança para seus filhos?
      Estou fazendo de tudo para ir para frente e não deixar manchas negras atrás de mim. Quem emigra do seu país para viver em um outro tem de ser muito forte.
       Também no trabalho, como comerciantes, no início tivemos muitas dificuldades. As pessoas passavam, percebiam a pronúncia estrangeira e não paravam. Mas não se pode deixar abater. Tento falar com os clientes que vêm na pizzaria. Existe um provérbio francês que diz: Ou você o come, ou é comido. Não quero dizer que é preciso ser agressivos, mas ser o primeiro a ir ao encontro do outro, com gentileza, bondade e inteligência. Faço o meu trabalho com o coração, por isso estou muito contente. A pizzaria me permite ter uma família, viver com dignidade e honestidade. Nunca vou enrolar ninguém, e isso também por causa da minha religião.
       Se quisesse voltar para o meu país, se quisesse ir morrer lá, gostaria de voltar com a cabeça erguida. Se viver bem, sei que no final me salvarei, e se me salvarei eu, salvarei também toda minha família.
       Quando estou com raiva ou preocupada, não quero que isso caia sobre as crianças. Logo absorvo tudo, também quando parece que não entendem. Antes é preciso estar em paz consigo mesmo, corrigir-se dentro. As nossas dificuldades não devem recair sobre os outros.
       Sabe o que fiz uma vez que me aconteceu um momento assim? Fiquei sozinha durante um dia inteiro, caminhei pela cidade, falei com pessoas que não conhecia... procurei desabafar, olhar coisas bonitas. E voltei para casa "curada". Não acredito que seja útil transmitir o próprio nervosismo aos outros.
       A vida é uma escola e até o último dia não se acaba nunca de aprender. Ninguém é perfeito, porque só Deus é perfeito, mas cada um tem algo de bom.
       Acredito na vida e estou armada de confiança. E depois? Inshallah! Aquilo que Deus quiser!

Organizado por Bianca Maisano

1 A guerra da Argélia, ou a Guerra da independência argelina (1954-1962). Foi um longo período de conflitos urbanos, atentados, guerrilhas e repressões que marcaram o fim da presença colonial francesa no norte da África e se concluiu com a independência da Argélia. No conflito, opunham-se o exército francês e os Franceses da Argélia, de um lado, e o Fronte de Liberação Nacional (FLN, Front de Libération Nationale) junto a outros grupos pela independência, de outro.