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Juntos é possível...
Em fevereiro deste ano, muitas outras crianças chegaram ao Instituto Cristóvão Colombo1, onde trabalho entre professores e educadores sociais, na preparação e participação de encontros formativos, entre aquelas crianças que exigem uma maior atenção, e nos contatos semanais com suas famílias, as quais o Instituto procura ajudar tanto com auxílio às necessidades básicas, quanto com espaços de diálogo, na busca de passos cotidianos, a fim de contribuirmos para o fortalecimento da estrutura familiar. Um trabalho em conjunto, com seus desafios e limites, que tenta criar as condições para que as crianças possam voltar a viver com suas famílias.
As crianças recém chegadas se deparam com um mundo novo, muitas pessoas a conhecer e muitas novidades a descobrir: outras crianças, os educadores sociais e os professores, o ambiente novo. É bonito ver como elas se encontram bem ali: brincam e correm pelos espaços do Instituto, o qual é muito grande para elas, acostumadas a morar em lugares apertados. Vivem o conhecimento mútuo e a alegria de encontrar novos amigos. Geralmente, as maiores cuidam das pequenas, como Isabela, uma menina de oito anos, que chegou há dois anos. Ela deu de presente um ursinho a uma menina de quatro anos, que tem muita saudade da mãe. Isabela, juntamente com uma amiga da mesma idade, cuida da pequena. Ela mesma sabe o que é a saudade, e que o ursinho pode ajudar a pequenina a superá-a. Sempre fica perto dela e a ajuda em tudo. Após duas semanas, a pequenina deixa de chorar e, sorrindo, conta a todos que não vai mais chorar, já não precisa, pois está feliz por ter tantos amigos. Isso amenizou a preocupação de seus pais, que moram em uma favela do centro, são vendedores ambulantes e vivem da venda de chocolates na entrada de uma estação de metrô. Agora estão contentes pela filha, por não ter que viver a tensão do trabalho. Eles também sentem pela separação, mas consideram prioritário que a criança possa receber uma boa educação, enquanto, eles mesmos, a cada dia, reservam algumas horas para estudar e tentar passar em concursos da Prefeitura, na esperança de encontrar um trabalho fixo e melhorar sua situação de vida.
Por trás de cada criança e de sua família, esconde-se um mundo: história e situações, às vezes, difíceis e sofridas, situações, essas, que acabam refletindo-se nos comportamentos das crianças, podendo se manifestar agressivas ou inquietas, na dificuldade de permanecerem sentadas e acom¬panhar as aulas, e em seu desejo exasperado de carinho. É importante não parar na primeira impressão, olhar com amor e paciência aquilo que há por detrás de cada criança, procurar compreendê-la, colocar-se ao seu serviço, dando-lhe a possibilidade de crescer, aprender, tornar-se pessoa, cada uma em sua própria originalidade.
Pensando nisso, gosto de uma frase de Antoine de Saint-Exupery: "Se você quer construir um navio, não reúna as pessoas para as tarefas e trabalhos; ensine-as a almejar a infinita imensidão do mar..."
Para as crianças não é difícil sonhar, e nós somos convidados a sonhar com elas, a crermos que, juntos, é possível cultivar sonhos grandes. Sonhos que nos colocam em movimento, além de nós mesmos, e se realizam nos pequenos passos cotidianos de estima e solidariedade, nas dificuldades que se enfrentam juntos, nos desafios da sobrevivência que, como uma lente de aumento, colocam em relevo as injustiças sociais, mas também a solidariedade existente e nos levam a pôr nossa vida à disposição, pessoalmente.
Muitas são as pessoas que trabalham a serviço das crianças do Instituto C. Colombo: educadores, professores, psicólogas, assistente social, e outras. É um desafio contínuo viver esse trabalho em equipe, para que cada um possa fazer a sua parte, em nível pedagógico, psicológico e social e, assim, caminharmos juntos a fim de que a criança e sua família possam se tornar sempre mais protagonistas de sua própria história.
Sinto-me interpelada por tudo aquilo que as mães me contam quando, na sexta-feira, elas vêm buscar as crianças. Sinto minha impotência diante de quem perdeu sua casa por causa das fortes chuvas, ou, pior ainda, diante de quem viveu o drama de perder uma pessoa querida, como ocorreu a Meire: sua menina de dois anos morreu após sua casa ser varrida pela lama, desmoronando. Em silêncio, compartilho essa grande dor e, ao mesmo tempo, agradeço junto a ela pela vida das outras crianças.
Essa mãe foi logo acolhida por sua irmã, em um pequeno barraco, a qual cuidou das crianças enquanto Meire teve que passar alguns dias no hospital, pelas feridas provocadas no desmoronamento da casa. Atualmente, a família está na casa de outros parentes e, devido ao pouco espaço, poderá permanecer só alguns meses.
Meire está fazendo de tudo para encontrar algo estável. Bate em tantas portas, mas, no âmbito da assistência pública, parece impossível uma ajuda. Resta-lhe a possibilidade de voltar ao terreno onde estava seu barraco e lá reconstruir sua casa. Com a ajuda de especialistas, certificamos que, com um muro bem construído, não haveria riscos de desmoronamento. Mesmo que esteja no sétimo mês de gravidez e, muitas vezes, sem passar bem, Meire não deixa de ir, todo dia, à procura de organizações e paróquias, das quais espera receber um pouco de material para a construção. Parece que está conseguindo juntar o necessário e os vizinhos, que são pedreiros, prontificaram-se a fazer um mutirão para a construção do muro e da casa.
O diálogo com Meire continua e, aos poucos, conheço tantos aspectos de sua situação. Enquanto procuramos juntos quais passos ainda tentar, preparamos também a acolhida da criança que irá nascer daqui a algumas semanas, pela qual também surgiu uma rede de solidariedade. Compartilhamos alegrias e dores, momentos de desânimo e de esperança, e sempre sobressai a fé, a certeza da presença de Deus, que ilumina e dá sentido a cada momento, e que se exprime por meio de muitos pequenos sinais de proximidade e de solidariedade.
Também Maria, mãe de três crianças, que em fevereiro entraram no Instituto, está sofrendo por causa da chuva. Em dezembro, por duas vezes seguidas, por causa das enchentes, perdeu tudo aquilo que tinha em seu pequeno barraco, em uma favela na zona leste de São Paulo. Alguns dias antes da Páscoa, contava que, com a forte chuva da noite, caiu metade do seu barraco. "Graças a Deus que as crianças estavam no Instituto, a chuva levou embora, justamente, a parte com o beliche onde elas dormem quando estão em casa. Eu estava dormindo do outro lado, senão, acho que teria morrido. Agradeço a Deus por como protegeu a mim e aos meus filhos. Hoje de manhã fui logo à Prefeitura, mas eles mandaram somente um arquiteto para tirar fotos e falaram que, neste momento, não tem verbas para me ajudar e nem um lugar para que possamos dormir. Agora, tenho que me virar, talvez mais para frente eles dêem uma ajuda."
Faltavam somente dois dias à quinta-feira santa, quando as crianças voltariam para a casa, para passar a Páscoa, e, preocupada, dizia: "Até lá, tenho que arrumar um lugar para ficar com elas". Maria pôde dormir na casa de parentes, mas para as crianças não tem um lugar: "Tenho medo de ir para um albergue com elas, dormir na rua não dá, pois agora, por causa das enchentes, por aqui tem cobras..." No entanto, não se deixa cair no desânimo e me comunica seus planos para resolver a situação: "Pensei em fortalecer o barraco com cimento, na parte mais fraca, refazer a parede e o teto com um pouco de madeira e telhas e, quem sabe, talvez até a próxima quinta-feira consiga também arrumar o beliche para as crianças. Já conversei com o marceneiro e ele se prontificou em fazer tudo amanhã, agora falta só o dinheiro."
Como enfrentar as dificuldades econômicas e resolver os problemas em pouco tempo? Na realidade, quando se tenta tudo, também além das próprias possibilidades, quando nos ajudamos reciprocamente, o pouco que cada um pode dar se multiplica.
Quinta-feira santa: Maria chega pontual, e sorridente, para a pequena festa de Páscoa que o Instituto organizou para as crianças e suas famílias. Abraça os filhos com carinho redobrado. Depois, comunica-me que conseguiu consertar o barraco e até arrumar o beliche. "Estou contente, as crianças não vão perceber as dificuldades que passei nesses dias. Elas são crianças e têm o direito de crescer felizes. Domingo vamos celebrar a Páscoa. Não tenho muito pra lhes dar, mas a nossa festa é a possibilidade de estarmos juntos, é o carinho que posso dar para elas."
Fiquei impressionada pela força dessas mães, que nas dificuldades não ficam paradas esperando algo acontecer, mas impulsionadas pelo amor, tentam tudo e, assim, onde a situação parecia ser sem saída, abriram-se novas possibilidades.
Com essas famílias, pude tocar o mistério da Páscoa, a presença do Crucificado e Ressuscitado. Ele que dá a força para atravessar e transformar cada situação e se deixa encontrar, sobretudo, onde, por amor, vivemos para os outros e não mais para nós mesmos.
Melanie Fuchs
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1 O Instituto, dos Missionários Scalabrinianos, acolhe em torno de 210 crianças, entre 5 e 12 anos, provenientes das periferias, favelas e cortiços de São Paulo, com situações e ambientes difíceis. De segunda a sexta-feira elas ficam no Instituto e os finais de semana em suas famílias. Além do necessário para viver, o Instituto oferece uma educação integral: escola, reforço escolar, esporte, arte, educação humano-cristã.
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