"Rumo à terra que eu te mostrarei" (Gn 12,1)

      O que têm em comum as histórias dos patriarcas bíblicos com os jovens de nosso tempo, os assim chamados "nativos digitais"? Como é possível que hoje, apesar do contexto totalmente diferente, podemos nos encontrar e nos identificar na aventura humana desses personagens antigos? E ainda: o que há de especial nos textos bíblicos, que os torna únicos, diferentes, portadores de uma Palavra à qual podemos nos confiar sem reservas?
      Todavia, sempre novamente acontece que Abraão, o primeiro dos patriarcas bíblicos, torna-se um companheiro de viagem para os jovens. Assim foi, também, para os jovens que participaram do campo de verão e que, dia após dia, souberam se colocar à escuta.
      Por alguns dias paramos sobre diversos episódios da história de Abraão, e na manhã do último dia, abrimos a Bíblia, no capítulo 12 do Gênesis, onde justamente começa a história dele. Narra-se de uma saída:
O Senhor falou a Abraão:
"Sai da tua terra,
do meio dos teus parentes,
da casa de teu pai,
e vai para a terra que eu te mostrarei.
Farei de ti uma grande nação
e te abençoarei:
engrandecerei o teu nome,
de modo que ele se torne uma bênção.
Abençoarei os que te abençoarem
e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.
Em ti serão abençoadas
todas as famílias da terra".
Então, Abraão partiu,
como o Senhor lhe havia dito,
e Ló foi com ele.
      Não era a primeira vez que Abraão partia. No livro do Gênesis (cap. 11,31) narra-se que sua família, natural de Ur, no sul da Mesopotâmia de então, hoje território iraquiano, havia se posto a caminho para ir em direção da terra de Canaã, justamente aquela que em seguida iremos conhecer como a terra prometida por Deus. O que é que torna diferente, especial, a saída que ocorre agora, não mais de Ur e sim de Harã, localidade situada em uma região a 1.000 km mais para o norte, onde a sua família tinha se estabelecido?
      A primeira coisa a observar, então, é que um fato comum de emigração foi reconhecido, de geração em geração, não como um acidente de percurso, ou somente como um fenômeno social, e sim como o fato através do qual começou a história de aliança entre Deus e o seu povo. E isto não é pouca coisa, porém, ainda não é tudo! Podemos nos perguntar: por que essa saída pôde dar muitos frutos, não somente na vida de Abraão, e sim até mesmo para os povos todos, também para nós? O que abriu espaço ao plano de Deus? O que foi que transformou essa saída em caminho de salvação?
      Se olharmos o texto mais de perto e procurarmos ver aquilo que a narração mesma sublinha, podemos facilmente reparar duas características dessa saída.
      A primeira: a narração a apresenta decididamente sob o sinal de uma relação viva com o outro, com um Tu, com o Senhor. O texto o diz claramente nas primeiras palavras: O Senhor disse a Abraão: isto é, Abraão não se move por sua iniciativa ou somente por necessidade, ou simplesmente por ser costume dos nômades. Certamente, tudo isso não se pode excluir, mas o que destaca é que Abraão é um homem que escuta, um homem atento ao projeto de Deus em sua vida. Ele não toma decisões sozinho, parte quando percebe que Deus o chama a partir, sua saída é na palavra do outro. E a meta? O texto a apresenta assim: ...em direção da terra que eu te mostrarei, em outras palavras: "Abraão, parta na confiança!" Eis a segunda característica: nessa partida, que acontece na palavra do outro, não se trata de obedecer a um programa a executar, e sim de uma confiança a dar em cada passo. Sem essa confiança, a viagem de Abraão estaria de repente sem meta, sem a possibilidade de individuar em qual direção dar o próximo passo. Abraão acabaria cedo se perguntando: "Mas, por que eu parti?". Sem essa relação de confiança, a viagem de Abraão se revelaria cedo sem sentido: ...em direção da terra que eu te mostrarei.
      Podemos observar que o texto bíblico brinca entre as diversas partidas de Abraão. Vimos que essa saída especial de Abraão se realiza de Harã, isto é, do lugar onde a sua família tinha se mudado. Mais adiante, porém, o Senhor vai se apresentar assim para Abraão: "Eu sou o Senhor que te fiz partir de Ur dos Caldeus" (15,7). Isto é, o Senhor refere-se a uma saída anterior, chamando em causa a cidade de origem da família de Abraão. Em outras palavras: ? Antes que tu, Abraão, percebesses minha presença, eu estava contigo? . Abraão, então, reconhece a presença de Deus nos acontecimentos concretos de sua história, na experiência migratória de sua família, um Deus próximo, presente na concreto de sua vida.

Anna Fumagalli